sexta-feira, fevereiro 06, 2009


JORNADA CREPUSCULAR
CRÓNICA DE MÁRIO MATTA E SILVA
JORNAL DA AMADORA

ATENÃO: PORTUGAL ESTÁ EM ALERTA CINZA-ESCURO



Ao voltar da minha jornada pelo crepúsculo tudo me parece estar a ficar em alerta cinza-escuro. Este não é um alerta meteorológico mas sim económico-político. Alerta por estarmos em ano de eleições. Já vão aquecendo as turbinas e ganha-se velocidade para as acostumadas promessas ao povo, de todos os lados e quadrantes, para ver quem ganha votos. Porém o crepúsculo desce manso e mostra-nos sem subtilezas as manhas que vão por aí em acaloradas retóricas que fazem pasmar qualquer incauto ou menos avisado, que não saiba lidar com a distinção precisa entre o falso e o verdadeiro. O partido que nos governa vai fazendo o seu cozinhado, misturando partido político e Governo, para darem estatísticas animadoras, promessas absurdas, tudo no maior dos alaridos. Ai desacreditada “política de pacotilha”, como já lhe chamava Ramalho Ortigão, nos finais do século dezanove, O Parlamento anda todo alvoroçado, com os deputados do poder e os da oposição engalfinhados na maior das “guerras de capoeira” da legislatura. Toca a pedir maiorias absolutas e a acenar com eventos à “Magalhães”, obras públicas e subsídios disto e daquilo. Toca a atirar contrapropostas ao governo, das bancadas da oposição, em golpes de rins de malabaristas. Vamos deitar mão dos sofismas tão apetecidos dos políticos para manobras de persuasão. Discursos acalorados e promessas bisonhas não irão faltar dentro ou fora do hemiciclo. E esta malvada da recessão poderá agravar-se por influência de uma indefinição politica que um ano de eleições sempre traz. A economia agrava-se mais no nosso país que noutros de maior importância e maior capacidade económica, mesmo que a braços com uma mesma recessão. Mas quem nos faz ver isso? Os deficits vão mostrando cenários alarmantes e ao mesmo tempo o desemprego vai-se alastrando, arrastando uma crise social de muita gravidade. Os orçamentos são geometrias erradas dentro de uma conjuntura desfavorável e o mais pequeno, ou mesmo a classe média, vão por certo sentir mais tão prolongada e profunda crise económica. Neste quadro cá está o “alerta cinza-escuro” que não permite birras de políticos a favor de políticas erradas que a confrontação partidária irá arrastar neste ano de 2009, ainda agora iniciado. Ainda vamos em Janeiro e já tanto se promete, em descarado tom eleitoralista, sem se pesar bem dos seus efeitos na recessão que tanto nos penaliza. Esta é uma jornada de incertezas, de incredulidades, de confrontos, de erros, de insucessos, em busca de votos em três actos eleitorais no mesmo ano, em ambiente hostil de crise económica profunda. Todos os erros serão graves suicídios para a estabilização dada a nossa imaturidade sociopolítica. E volto ao crepuscular, em tarde invernosa, onde o frio da jornada nos lança o alerta de um Outono quente, envolto em combates políticos de grande envergadura e desperdício, o que vale pela rotatividade tão saudável à democracia. Soa assim um alerta à recessão acompanhada dos exorbitantes gastos com os três actos eleitorais que aí vêm, sem possibilidade de travar tudo isto. Por fim, a mesma comunicação social que nos mostra o encerramento diário de empresas, os salários em atraso, os despedimentos, a distorcida avaliação de professores e de alunos, as greves, os assaltos, os crimes, a pobreza, os sem abrigo….mostrará também os discursos, as promessas, as inaugurações, as manobras de sedução, as palmas, as trompetas, os bombos, as bandeiras dos comícios por esse país subalimentado e pálido porque afundado em crises sucessivas, por arbitrariedades da classe política, por rombos bancários, por fragilização da justiça e dos cuidados de saúde, por salários baixos, por pensões de miséria… A banda dos comícios passará, inundada de abraços, de beijos, de promessas, de astúcias. Como estaremos mais falidos daqui a um ano! Falidos politica e economicamente… falidos na honra e no orgulho… falidos na esperança de dias melhores. Tudo isto nasce e cresce em cada crepúsculo no adiar da nossa exaltação patriótica que nem as transferências dos emigrantes podem enaltecer, num choro de vergonha que tantas famílias vão sentindo nesta escalada de desempregados. Que nos restem uns crepúsculos feitos de muita, mas muita, paciência, para aguentarmos todo este infortúnio vestido de cinza-escuro… 19 de Janeiro de 2009

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