noutratitude Epopeia Dantesca
(à Divina Comédia de Dante Alighieri 1289- 1321)
1
Põe-se todo o Mundo sangrando
de inaudíveis superstições
ao reduzir-nos às crenças, ignorando
nossas próprias sensações.
O Homem na palavra vai desvendando
o que lhe ditam tais falsas convenções
e mais do que os próprios Testamentos
se engendram metafísicos eventos!
2
Em Dante a forma e a mensagem
têm, no seu tempo, essa força divina
num ímpeto poético de coragem
que a todos se espelhou bem na retina.
Sobra no abismo da sua imagem
o que se esvai na palavra cristalina.
Assim, tudo o que cresceu na vontade humana
se tornou em verdade mais profana!
3
Três dimensões, diria, de evocação
sobre uma árvore frondosa de sentimentos
em resignados prantos de falsa devoção
que levou a dolorosos sofrimentos.
Daí o Inferno, informe, em erupção
e o Purgatório, abismo de lamentos.
Para tudo levar em bom juízo
à gratidão de se alcançar o Paraíso!
4
Oh, limbo de ingénuos, longo caminhoque as almas percorrem sonolentas
apelando ao humano desalinho
e à Paz feita de guerras violentas.
Por tudo que a terra tem de descaminho
se reduz em utopias e tormentas.
Glórias tantas dos tempos já passados
aventureiros loucos, humilhados!
5
E se Dante vai subindo na montanha
buscando o Paraíso lá no cume
trás firme na palavra a artimanha
de que quem peca será deitado ao lume.
Assim nos deixa essa ardilosa senha
que tão bem numa comédia se assume.
Virão depois, em tempos outros, aplaudir
que o AMOR é que é obra p’ra cumprir!
6
Oh ditames terrenos tão penalizantes
que no poder p’la força mostram dureza
negando as virtudes, de forma delirante
e esses dons mais altos da Natureza.
Como os Deuses no Empírio, vigilantes
se tornaram num só Deus feito pureza!
Por isso, tantas gerações, longo passado
a Divina Comédia têm renegado!
7
Como se o mal gladiasse o bem
numa maquinação da eternidade
por ganâncias se perde o que se tem
e por orgulho se arrasta a falsidade
nada há de feliz no Mundo ou nesse Além
que a própria existência de verdade.
Que pecados mortais, que ética divina
cobre de lama cad’alma cristalina?
8
Com Virgílio e Boccacio, no passado
e com Gil Vicente, Camões e outros mais
ficou a mensagem perspicaz do que é pecado
e dos castigos funestos pouco originais.
Na vil Inquisição se é torturado
por abusos em claustros, catedrais.
Mas em delírios não se neguem as Escrituras
qu’elas fazem parte de muitas Culturas!
9
A Bíblia, a Tora, o Alcorão que vingaram
na Fé que escorre p’las faces dos crentes
são fontes da História Humana que se fixaram
de forma importante quando coerente.
Foi nos Cristãos Novos que se criaram
caminhadas tortuosas nunca inocentes…
E nesta liberdade tirada à mente humana
fortaleceu toda a ideologia mais profana!
10
Agigantou-se a Reforma Cristiana
contra o dogma e a imagem ilusória
e agora toda a gente se perde e se ufana
de se corromper para atingir glória.
Oh caminhos da ciência, obra insana
que levou a mulher a entrar na História.
Haverá coisa mais rica, mais sublime
do que não ter já o sexo como crime?
11
Em Dante, grande altura e grande abismo
onde se sobe ou desce fraco como um vime
até que a força da Fé, no próprio Cristianismo
arrasará tudo o mais que nos oprime.
Que muito há por aí que é só cinismo
fazendo da corrupção coisa sublime.
E valha-nos o nosso equilíbrio sensorial
porque existirão sempre o Bem e o Mal!
F I M
Lisboa, 25.06.2006