sábado, dezembro 23, 2006








O POETA E O NATAL



Nasce a palavra, ela vem
No sopro de cada instante
Não interessa o que contém
Mas está cá fundo
Distante
Em tudo o que respira o Mundo
Num jorrar incessante
Ou num só pensamento, mesmo que dilacerante.

Há no ventre de cada Mãe
A vida que nela contém
Da nossa vida
Numa alusão incontida
De Natividade
E reza-se a cada divindade
Porque é a Mãe a única que traz verdade
Quando na sua palavra pura
Feita de candura.

Rasgam-se cinismos
Tapam-se abismos
Afogam-se vinganças
E removem-se esperanças.
Mas dar as mãos por um só dia
Porque é Natal?
Isso é cobardia
Um mal trocado por outro mal
Uma prenda envenenada
Mais nada!

A amizade verdadeira
Essa, vem nas palavras do Poeta!
É a que dura a vida inteira
Porque certeira
Em linha recta.
E só as duas palavras unidas
Têm sentido:
A do Poeta e a da Fé.
As duas se manterão de pé
Não diluídas…Uma vida… gerando vidas!


NATAL de 2006





Nocturno I
Que trazem afinal
as estrelas
cintilantes, belas
descendo dessa abóbada
em espiral?

Que traz a noite
no seu manto de incertezas
de praguejos e de rezas
em brando açoite
de ar estival?

Talvez que a escuridão
traga consigo rostos tristes
pálpebras cerradas
segredos que descobrem madrugadas
a mostrarem o quanto resistes…


Nocturno II
Quando vou ter contigo a altas horas
levo um largo sorriso
claro e gentil
até à doçura do teu olhar
escondendo as angústias
e as tristezas que me consomem
para que as estrelas tomem
o brilho da paixão
que te tenho tão febril
e a vá depositar
no teu colo ansioso
em forma de lua nova…
A noite então se renova
e me enrolo no teu suave respirar.

Nocturno III
Na forma crepuscular
do verbo amar
sinto-me crispar
em luta com a vida
numa saudade sentida
do tempo que passou:
do que mudei, do que mudou.
Meus olhos sabem chorar
a distância vencida
que não sei ocultar!

Nocturnos
pensamentos
em que me debato
sem constrangimentos;
no meu retrato
que olho por momentos
estou inda novato
e nesse sorrir
hoje baço
parecia ainda não sentir
este cansaço
feito no amor, na amizade
mas tão nocturno na idade!

acabado em 19.12.2006

noutratitude

noutratitude
Epopeia Dantesca

(à Divina Comédia de Dante Alighieri 1289- 1321)

1
Põe-se todo o Mundo sangrando
de inaudíveis superstições
ao reduzir-nos às crenças, ignorando
nossas próprias sensações.
O Homem na palavra vai desvendando
o que lhe ditam tais falsas convenções
e mais do que os próprios Testamentos
se engendram metafísicos eventos!

2
Em Dante a forma e a mensagem
têm, no seu tempo, essa força divina
num ímpeto poético de coragem
que a todos se espelhou bem na retina.
Sobra no abismo da sua imagem
o que se esvai na palavra cristalina.
Assim, tudo o que cresceu na vontade humana
se tornou em verdade mais profana!

3
Três dimensões, diria, de evocação
sobre uma árvore frondosa de sentimentos
em resignados prantos de falsa devoção
que levou a dolorosos sofrimentos.
Daí o Inferno, informe, em erupção
e o Purgatório, abismo de lamentos.
Para tudo levar em bom juízo
à gratidão de se alcançar o Paraíso!

4
Oh, limbo de ingénuos, longo caminho

que as almas percorrem sonolentas
apelando ao humano desalinho
e à Paz feita de guerras violentas.
Por tudo que a terra tem de descaminho
se reduz em utopias e tormentas.
Glórias tantas dos tempos já passados
aventureiros loucos, humilhados!

5
E se Dante vai subindo na montanha
buscando o Paraíso lá no cume
trás firme na palavra a artimanha
de que quem peca será deitado ao lume.
Assim nos deixa essa ardilosa senha
que tão bem numa comédia se assume.
Virão depois, em tempos outros, aplaudir
que o AMOR é que é obra p’ra cumprir!

6
Oh ditames terrenos tão penalizantes
que no poder p’la força mostram dureza
negando as virtudes, de forma delirante
e esses dons mais altos da Natureza.
Como os Deuses no Empírio, vigilantes
se tornaram num só Deus feito pureza!
Por isso, tantas gerações, longo passado
a Divina Comédia têm renegado!

7
Como se o mal gladiasse o bem
numa maquinação da eternidade
por ganâncias se perde o que se tem
e por orgulho se arrasta a falsidade
nada há de feliz no Mundo ou nesse Além
que a própria existência de verdade.
Que pecados mortais, que ética divina
cobre de lama cad’alma cristalina?

8
Com Virgílio e Boccacio, no passado
e com Gil Vicente, Camões e outros mais
ficou a mensagem perspicaz do que é pecado
e dos castigos funestos pouco originais.
Na vil Inquisição se é torturado
por abusos em claustros, catedrais.
Mas em delírios não se neguem as Escrituras
qu’elas fazem parte de muitas Culturas!

9
A Bíblia, a Tora, o Alcorão que vingaram
na Fé que escorre p’las faces dos crentes
são fontes da História Humana que se fixaram
de forma importante quando coerente.
Foi nos Cristãos Novos que se criaram
caminhadas tortuosas nunca inocentes…
E nesta liberdade tirada à mente humana
fortaleceu toda a ideologia mais profana!

10
Agigantou-se a Reforma Cristiana
contra o dogma e a imagem ilusória
e agora toda a gente se perde e se ufana
de se corromper para atingir glória.
Oh caminhos da ciência, obra insana
que levou a mulher a entrar na História.
Haverá coisa mais rica, mais sublime
do que não ter já o sexo como crime?

11
Em Dante, grande altura e grande abismo
onde se sobe ou desce fraco como um vime
até que a força da Fé, no próprio Cristianismo
arrasará tudo o mais que nos oprime.
Que muito há por aí que é só cinismo
fazendo da corrupção coisa sublime.
E valha-nos o nosso equilíbrio sensorial
porque existirão sempre o Bem e o Mal!
F I M

Lisboa, 25.06.2006



noutratitude

noutratitude
Epopeia Dantesca

(à Divina Comédia de Dante Alighieri 1289- 1321)

1
Põe-se todo o Mundo sangrando
de inaudíveis superstições
ao reduzir-nos às crenças, ignorando
nossas próprias sensações.
O Homem na palavra vai desvendando
o que lhe ditam tais falsas convenções
e mais do que os próprios Testamentos
se engendram metafísicos eventos!

2
Em Dante a forma e a mensagem
têm, no seu tempo, essa força divina
num ímpeto poético de coragem
que a todos se espelhou bem na retina.
Sobra no abismo da sua imagem
o que se esvai na palavra cristalina.
Assim, tudo o que cresceu na vontade humana
se tornou em verdade mais profana!

3
Três dimensões, diria, de evocação
sobre uma árvore frondosa de sentimentos
em resignados prantos de falsa devoção
que levou a dolorosos sofrimentos.
Daí o Inferno, informe, em erupção
e o Purgatório, abismo de lamentos.
Para tudo levar em bom juízo
à gratidão de se alcançar o Paraíso!

4
Oh, limbo de ingénuos, longo caminho

que as almas percorrem sonolentas
apelando ao humano desalinho
e à Paz feita de guerras violentas.
Por tudo que a terra tem de descaminho
se reduz em utopias e tormentas.
Glórias tantas dos tempos já passados
aventureiros loucos, humilhados!

5
E se Dante vai subindo na montanha
buscando o Paraíso lá no cume
trás firme na palavra a artimanha
de que quem peca será deitado ao lume.
Assim nos deixa essa ardilosa senha
que tão bem numa comédia se assume.
Virão depois, em tempos outros, aplaudir
que o AMOR é que é obra p’ra cumprir!

6
Oh ditames terrenos tão penalizantes
que no poder p’la força mostram dureza
negando as virtudes, de forma delirante
e esses dons mais altos da Natureza.
Como os Deuses no Empírio, vigilantes
se tornaram num só Deus feito pureza!
Por isso, tantas gerações, longo passado
a Divina Comédia têm renegado!

7
Como se o mal gladiasse o bem
numa maquinação da eternidade
por ganâncias se perde o que se tem
e por orgulho se arrasta a falsidade
nada há de feliz no Mundo ou nesse Além
que a própria existência de verdade.
Que pecados mortais, que ética divina
cobre de lama cad’alma cristalina?

8
Com Virgílio e Boccacio, no passado
e com Gil Vicente, Camões e outros mais
ficou a mensagem perspicaz do que é pecado
e dos castigos funestos pouco originais.
Na vil Inquisição se é torturado
por abusos em claustros, catedrais.
Mas em delírios não se neguem as Escrituras
qu’elas fazem parte de muitas Culturas!

9
A Bíblia, a Tora, o Alcorão que vingaram
na Fé que escorre p’las faces dos crentes
são fontes da História Humana que se fixaram
de forma importante quando coerente.
Foi nos Cristãos Novos que se criaram
caminhadas tortuosas nunca inocentes…
E nesta liberdade tirada à mente humana
fortaleceu toda a ideologia mais profana!

10
Agigantou-se a Reforma Cristiana
contra o dogma e a imagem ilusória
e agora toda a gente se perde e se ufana
de se corromper para atingir glória.
Oh caminhos da ciência, obra insana
que levou a mulher a entrar na História.
Haverá coisa mais rica, mais sublime
do que não ter já o sexo como crime?

11
Em Dante, grande altura e grande abismo
onde se sobe ou desce fraco como um vime
até que a força da Fé, no próprio Cristianismo
arrasará tudo o mais que nos oprime.
Que muito há por aí que é só cinismo
fazendo da corrupção coisa sublime.
E valha-nos o nosso equilíbrio sensorial
porque existirão sempre o Bem e o Mal!
F I M

Lisboa, 25.06.2006