sábado, fevereiro 14, 2009












JORNADA CREPUSCULAR
CRÓNICA DE: MÁRIO MATTA E SILVA

JORNAL DA AMADORA

CADA LIVRO É UM FILHO


Ando por aqui, em jornada crepuscular, já lá vão uns anos, sofrendo sobressaltos com as palavras que alinho, cada vez que me disponho a alinhavar mais uma crónica para as páginas deste jornal. As palavras, as frases, as linhas, os parágrafos, têm de me sair ao sabor do meu estado de espírito, sem pensar talvez, no estado de espírito daqueles que depois me vão ler pacientemente. Mas, ao mesmo tempo, vou deslizando com as teclas do computador (por vezes, antes, com a caneta, numa ginástica mental mais saudável) por textos que componho em páginas, que, meticulosamente, se transformarão em livro. A poesia escorre, quando a maré cresce dentro de mim, nem sempre desfeita por ondas desventradas e agigantadas de um mar tenebroso que me desassossega, por vezes sacudida por uma aragem ténue e meiga. Com o emaranhar do verso, componho abstracções ou imagens de suposta realidade, na construção edílica de estrofes, que se vão arrumando em cada folha, tirando-lhe o que antes era imaculado e estéril. Quando começo a entender que o livro se está a formar, sinto-me gratificado e grito: vem aí mais um filho! Feliz de quem tem estas loucuras sãs, querendo fazer passar mensagens fluidas e cristalinas, numa aventura tantas vezes incompreendida. Basta que eu compreenda assim como compreendi um Antero, um Camilo Pessanha, um Cesário Verde, um Nobre, um Pessoa, um José Régio, um Mourão Ferreira, um Couto Viana… ou tantos outros, quase anónimos, que nos chegam às mãos, nas imensas leituras que as manhãs crepusculares vão trazendo e as jornadas da noite mo permitem. Na azáfama da escrita, só mais tarde me lembro de revisões, impressão, editoras, todo esse trabalho cirúrgico, gélido e confuso, necessário para “parir” este filho. Vou empilhando as folhas, saboreando as páginas, relendo cada linha, emendando no compasso das coerências de cada instante e de cada angustia, desenhada em ses: se isto fosse assim, se lhe mudar aquilo, se lhe colocar mais qualquer coisa, se riscar aqui, se emendar ali….se…se…se. Descontentamento descontente, para que tudo dê certo! Exigência na minúcia de cada passo à frente. E o livro não vê o seu fim. A gestação é longa até à exaustão. Mas o livro ganhará forma na trama do seu conteúdo, Grito contra o tempo, contra a urgência, a impaciência, a descrença e a ousadia. Escrever mais um livro! Para quem? Para o Mundo, claro! Para todos em geral e para ninguém em particular! Mas que seja bonito, saudável, límpido, agradável ao toque e à leitura. Que seja também apreciado e aplaudido! Quantos autores morreram sem verem obra feita, consultada, criticada, atirada a uma posteridade magoada, sem a partilha de uma glória ou de uma ventura florida e terna! Quanta poesia póstuma deixando o timbre da ansiedade desfeita de cada autor defunto? Depois, quanta artimanha e azáfama na ausência de cada autor, por vezes naquela ansiedade de um aproveitamento ignóbil e leviano, sempre que se desmonta um trabalho de forma póstuma, sem respeito pelo seu autor. Arte sofre! E quando vem a penumbra crepuscular logo se avança mais umas linhas, umas páginas… e vai-se compondo a obra, por muito singela que seja. Os sintomas de afectividade vão-se manifestando ao sentir o livro avançar, tomar corpo. Depois é nascer enlevado e feliz. Folheado, lido, sentido, manuseado. É preciso coragem, sensibilidade e amor… porque um livro é como um filho, bem tratado e cá dentro muito acarinhado. Não tarda vai-me nascer mais um livro e tudo foi vivido desta forma, numa vertigem quase crepuscular. 22.01.2009


QUERO UM ANO FELIZ



DUVIDA DE MIM


Não sei prever
ao escrever
no sentir perverso
em que se derrama
sem fama
o verso.

Não sei prever
o futuro
sem que haja um brilho
no semblante duro
para descrever
sem orientação
o avanço
ou trilho
a desilusão
do que procuro
e não alcanço.

Sei lá eu até quando
se ando e desando
em tropeções…
Sei lá eu conter o comando
e o descomando
das emoções?


mms






sexta-feira, fevereiro 06, 2009




VOU COM AS LUAS

Andam as luas troçando
Do meu jeito de ansiedade
Que tropeça sem maldade
No mal que o vem animando.

Trocam-se as luas brincando
Com as minhas emoções
Dando luz às impressões
Da impressão embarcando.

Ao vislumbrar a Lua nova
Enchi-me de novidades
Fiz-me feliz e de vaidades
Enchi este ar de trovas.

De lua em lua saltei
Qual delas mais desvairada
E sua cor alaranjada
Em sonhos eu transformei.

Mudando a lua, mudei-me
Na bruma da realidade
P’ra viver de felicidade
E no agora eternizei-me.

Cada luar a angústia traça
Meu caminho impertinente
Que duma forma insistente
Traça a graça e a desgraça.

Fevereiro 2009
MÁRIO MATTA E SILVA



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PARA TE CANTAR VENEZA

1
VENEZA
Aqui eu me encontrei
Feliz me encantei
De tanto te admirar
Por cá não me demorarei
Mas de ti eu levarei
Tua formosura sem par.

2
VENEZA
Enfim tornada realidade
Sonho que levará à saudade
De tanto que por ti suspirei
Para conhecer tua verdade
Em tanta História que te invade
Em tantos Museus por onde andei.

3
VENEZA
Das tuas águas, canais
Da força das Artes monumentais
Gôndolas e alegres gondoleiros…
E posso cantar-te mais
Dos Santos que festejais
No bulício de milhões de forasteiros.


4
VENEZA
Minha felicidade, minha paixão
Vibrando em meu coração
Batendo cheio de ternura
E sei que ao deixar teu Sol fica a devoção
De que te tornaste na minha gratidão
E te depositarei numa moldura.

5
VENEZA
Tão religiosa e tão profana
Numa vaidade “mascarada” e mundana
Que se espelha no luar…
Ai, tantas sensações de uma semana
Na tua musicalidade leviana
No ambiente cálido que me deste para AMAR.

VENEZA, 25.07.2006
Mário Matta e Silva





















JORNADA CREPUSCULAR
CRÓNICA DE: MÁRIO MATTA E SILVA
(Jornal da Amadora)

OUTRAS CIGARRAS E OUTRAS FORMIGAS

2009, um ano que ainda há pouco começou, cheio de maus presságios a prometer um Inverno bem frio e bem chuvoso. O crepúsculo nem parece o mesmo, sem aquele conjunto de cores que faz a transição para a noite cerrada, na maravilha das constelações em jornada celeste num azul doce. Nada disso. Os dias já vão escuros, frios e húmidos demais para mostrar essa despedida de sóis radiosos e mornos e as noites enluaradas. Neste desaconchego de um rigoroso Inverno não faltam as cigarras e as formigas, umas cantando outras labutando. Em tempo de recessão não admira porém que sejam outras as cigarras e outras as formigas a esgueirarem-se pelo ruído dos noticiários ou da comunicação social em peso, na guerras das audiências (TV e rádios) e das compras (jornais, revistas…) porque o seu poder de persuasão (mais do que de entretenimento) é tão agressivo que nos trás, diariamente, as maiores brutalidades que o País e o Mundo contém, em si mesmo, esvaindo-se em guerras, em assassinatos, em desavenças, em descrenças, em ódios, em calúnias, em subornos, em roubos, em falcatruas, em doenças, em denúncias, em fraudes, em desemprego, em ruína… Por outro lado, esse mesmo dia-a-dia mostra-nos bem falantes, opiniosos, malabaristas, astuciosos, tribunos, defensores de criminosos alegando inocência, prevaricadores procurando impunidades, ladrões e criminosos com direito a liberdade, poderes frouxos, políticos audazes a querer convencer os contribuintes, os arautos da cidadania em bicos dos pés em arremessos de autoridade, os ciosos, os traficantes, os arruaceiros, os gananciosos, os palavrosos… que são, sem sombra de dúvida essas outras cigarras, cantando, botando discurso, fazendo batota. E quando retomo a jornada crepuscular, olhando ao alvorecer a janela, que vejo eu: o corre-corre de quem trabalha a sério (e não à séria) galgando cedo da cama empenhados na garantia de um emprego, que cada vez está mais em perigo. E lá vejo eu os das obras (privadas ou públicas) que lá vão tendo trabalho, os camarários, os professores, os dos serviços de saúde, (indo muitos dos nossos para o estrangeiro e os da América Latina e Espanha a virem para os nosso pais) os das zonas portuárias, os pescadores, os dos trabalhos agrícolas, os dos serviços, os das fábricas (que ainda vão laborando) os do comércio (que vai resistindo) os da administração pública em geral, etc….tudo gente que ainda vai tendo o seu posto de trabalho, o seu ganha-pão, a sua esperança de não falhar os seus empréstimos, as suas prestações…e logo penso onde estão esses milhares e milhares de desempregados, que todos os dias aquela mesma comunicação social mostra com avidez e pormenor, essas vitimas de falências (muitas vezes fraudulentas) esse grupo de gente, que vai todos os dias engrossando, vitima das maiores desgraças e de muitos erros de administração e de poder, que se vê sem salários, à mingua de parcos subsídios todos os dias anunciados pelos políticos, chorando sem fé a sua desdita… estas são as novas formigas. As que não se guindam, filhas da crise, nos ares pestilentos da prosápia, que sofrem por terem perdido o seu trabalho ou por quererem começar a trabalhar! Essas pessoas que já nem sabem em que mundo vivem, que para eles não é capitalista, nem socialista… é tão somente avaro de felicidade, arbitrário na escolha dos abandonados à má sorte, dos sem força, sem ânimo, sem poder. Abandonadas, entregues ao cinismo dos que disputam eleições, dos que decidem, dos que se emproam… essas mesmas, que querem trabalhar, que querem cumprir os seus compromissos, que querem criar os seus filhos, que querem uma vida honrada e feliz, são por certo essas outras formigas…entregues ao livre arbítrio dessas outras cigarras ruidosas, arrogantes, mesquinhas. E todos os dias a comunicação social lança estas miseráveis noticias de desemprego, falando-nos nessas outras cigarras e nessas outras formigas… porque todos os dias há crepúsculo em tempo de recessão! 3 de Fevereiro de 2009


JORNADA CREPUSCULAR
CRÓNICA DE MÁRIO MATTA E SILVA
JORNAL DA AMADORA

ATENÃO: PORTUGAL ESTÁ EM ALERTA CINZA-ESCURO



Ao voltar da minha jornada pelo crepúsculo tudo me parece estar a ficar em alerta cinza-escuro. Este não é um alerta meteorológico mas sim económico-político. Alerta por estarmos em ano de eleições. Já vão aquecendo as turbinas e ganha-se velocidade para as acostumadas promessas ao povo, de todos os lados e quadrantes, para ver quem ganha votos. Porém o crepúsculo desce manso e mostra-nos sem subtilezas as manhas que vão por aí em acaloradas retóricas que fazem pasmar qualquer incauto ou menos avisado, que não saiba lidar com a distinção precisa entre o falso e o verdadeiro. O partido que nos governa vai fazendo o seu cozinhado, misturando partido político e Governo, para darem estatísticas animadoras, promessas absurdas, tudo no maior dos alaridos. Ai desacreditada “política de pacotilha”, como já lhe chamava Ramalho Ortigão, nos finais do século dezanove, O Parlamento anda todo alvoroçado, com os deputados do poder e os da oposição engalfinhados na maior das “guerras de capoeira” da legislatura. Toca a pedir maiorias absolutas e a acenar com eventos à “Magalhães”, obras públicas e subsídios disto e daquilo. Toca a atirar contrapropostas ao governo, das bancadas da oposição, em golpes de rins de malabaristas. Vamos deitar mão dos sofismas tão apetecidos dos políticos para manobras de persuasão. Discursos acalorados e promessas bisonhas não irão faltar dentro ou fora do hemiciclo. E esta malvada da recessão poderá agravar-se por influência de uma indefinição politica que um ano de eleições sempre traz. A economia agrava-se mais no nosso país que noutros de maior importância e maior capacidade económica, mesmo que a braços com uma mesma recessão. Mas quem nos faz ver isso? Os deficits vão mostrando cenários alarmantes e ao mesmo tempo o desemprego vai-se alastrando, arrastando uma crise social de muita gravidade. Os orçamentos são geometrias erradas dentro de uma conjuntura desfavorável e o mais pequeno, ou mesmo a classe média, vão por certo sentir mais tão prolongada e profunda crise económica. Neste quadro cá está o “alerta cinza-escuro” que não permite birras de políticos a favor de políticas erradas que a confrontação partidária irá arrastar neste ano de 2009, ainda agora iniciado. Ainda vamos em Janeiro e já tanto se promete, em descarado tom eleitoralista, sem se pesar bem dos seus efeitos na recessão que tanto nos penaliza. Esta é uma jornada de incertezas, de incredulidades, de confrontos, de erros, de insucessos, em busca de votos em três actos eleitorais no mesmo ano, em ambiente hostil de crise económica profunda. Todos os erros serão graves suicídios para a estabilização dada a nossa imaturidade sociopolítica. E volto ao crepuscular, em tarde invernosa, onde o frio da jornada nos lança o alerta de um Outono quente, envolto em combates políticos de grande envergadura e desperdício, o que vale pela rotatividade tão saudável à democracia. Soa assim um alerta à recessão acompanhada dos exorbitantes gastos com os três actos eleitorais que aí vêm, sem possibilidade de travar tudo isto. Por fim, a mesma comunicação social que nos mostra o encerramento diário de empresas, os salários em atraso, os despedimentos, a distorcida avaliação de professores e de alunos, as greves, os assaltos, os crimes, a pobreza, os sem abrigo….mostrará também os discursos, as promessas, as inaugurações, as manobras de sedução, as palmas, as trompetas, os bombos, as bandeiras dos comícios por esse país subalimentado e pálido porque afundado em crises sucessivas, por arbitrariedades da classe política, por rombos bancários, por fragilização da justiça e dos cuidados de saúde, por salários baixos, por pensões de miséria… A banda dos comícios passará, inundada de abraços, de beijos, de promessas, de astúcias. Como estaremos mais falidos daqui a um ano! Falidos politica e economicamente… falidos na honra e no orgulho… falidos na esperança de dias melhores. Tudo isto nasce e cresce em cada crepúsculo no adiar da nossa exaltação patriótica que nem as transferências dos emigrantes podem enaltecer, num choro de vergonha que tantas famílias vão sentindo nesta escalada de desempregados. Que nos restem uns crepúsculos feitos de muita, mas muita, paciência, para aguentarmos todo este infortúnio vestido de cinza-escuro… 19 de Janeiro de 2009