
JORNADA CREPUSCULAR CRÓNICA DE: MÁRIO MATTA E SILVA JORNAL DA AMADORA CADA LIVRO É UM FILHO Ando por aqui, em jornada crepuscular, já lá vão uns anos, sofrendo sobressaltos com as palavras que alinho, cada vez que me disponho a alinhavar mais uma crónica para as páginas deste jornal. As palavras, as frases, as linhas, os parágrafos, têm de me sair ao sabor do meu estado de espírito, sem pensar talvez, no estado de espírito daqueles que depois me vão ler pacientemente. Mas, ao mesmo tempo, vou deslizando com as teclas do computador (por vezes, antes, com a caneta, numa ginástica mental mais saudável) por textos que componho em páginas, que, meticulosamente, se transformarão em livro. A poesia escorre, quando a maré cresce dentro de mim, nem sempre desfeita por ondas desventradas e agigantadas de um mar tenebroso que me desassossega, por vezes sacudida por uma aragem ténue e meiga. Com o emaranhar do verso, componho abstracções ou imagens de suposta realidade, na construção edílica de estrofes, que se vão arrumando em cada folha, tirando-lhe o que antes era imaculado e estéril. Quando começo a entender que o livro se está a formar, sinto-me gratificado e grito: vem aí mais um filho! Feliz de quem tem estas loucuras sãs, querendo fazer passar mensagens fluidas e cristalinas, numa aventura tantas vezes incompreendida. Basta que eu compreenda assim como compreendi um Antero, um Camilo Pessanha, um Cesário Verde, um Nobre, um Pessoa, um José Régio, um Mourão Ferreira, um Couto Viana… ou tantos outros, quase anónimos, que nos chegam às mãos, nas imensas leituras que as manhãs crepusculares vão trazendo e as jornadas da noite mo permitem. Na azáfama da escrita, só mais tarde me lembro de revisões, impressão, editoras, todo esse trabalho cirúrgico, gélido e confuso, necessário para “parir” este filho. Vou empilhando as folhas, saboreando as páginas, relendo cada linha, emendando no compasso das coerências de cada instante e de cada angustia, desenhada em ses: se isto fosse assim, se lhe mudar aquilo, se lhe colocar mais qualquer coisa, se riscar aqui, se emendar ali….se…se…se. Descontentamento descontente, para que tudo dê certo! Exigência na minúcia de cada passo à frente. E o livro não vê o seu fim. A gestação é longa até à exaustão. Mas o livro ganhará forma na trama do seu conteúdo, Grito contra o tempo, contra a urgência, a impaciência, a descrença e a ousadia. Escrever mais um livro! Para quem? Para o Mundo, claro! Para todos em geral e para ninguém em particular! Mas que seja bonito, saudável, límpido, agradável ao toque e à leitura. Que seja também apreciado e aplaudido! Quantos autores morreram sem verem obra feita, consultada, criticada, atirada a uma posteridade magoada, sem a partilha de uma glória ou de uma ventura florida e terna! Quanta poesia póstuma deixando o timbre da ansiedade desfeita de cada autor defunto? Depois, quanta artimanha e azáfama na ausência de cada autor, por vezes naquela ansiedade de um aproveitamento ignóbil e leviano, sempre que se desmonta um trabalho de forma póstuma, sem respeito pelo seu autor. Arte sofre! E quando vem a penumbra crepuscular logo se avança mais umas linhas, umas páginas… e vai-se compondo a obra, por muito singela que seja. Os sintomas de afectividade vão-se manifestando ao sentir o livro avançar, tomar corpo. Depois é nascer enlevado e feliz. Folheado, lido, sentido, manuseado. É preciso coragem, sensibilidade e amor… porque um livro é como um filho, bem tratado e cá dentro muito acarinhado. Não tarda vai-me nascer mais um livro e tudo foi vivido desta forma, numa vertigem quase crepuscular. 22.01.2009 |



