NA ESQUINA DOS ANOS
A voragen
tomou conta de nós
no gesto e na voz
a ecoar na aragem
que nos fustiga
lenta e antiga.
As horas batem
ordenadas
febris, enervadas;
as angústias partem
e voltam em remoínhos.
Corações em desalinho.
Os dias sedentários
não têm horários
em calendários ancestrais;
as mortes são banais
como as flores a abriri
os lábios a sorrir.
A poluição
vem em quadrilhas
não em seis-tilhas;
a terra é um caldeirão
que estremece
porque magoada, aquece.
Na esquina dos anos
sobram erros, enganos
estilhaçando o Ser
para se morrer
sabe-se lá de que forma
sem estatuto ou norma.
27.11.2006

(ao Surrealismo e para Mário Cesariny de Vasconcelos - falecido com 83 anos, ontem 26.11.2006)
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